LAURA COSTA, ILUSTRADORA DE UMA GERAÇÃO
Quando se fala hoje de Laura Costa, é frequente encontrar referências à sua "redescoberta" recente. A expressão é enganadora. Referi-a inúmeras vezes no grupo «Photographias Portuguezas», desde 2011. Para os portugueses que foram crianças nas décadas de 1960 e 1970, Laura Costa nunca desapareceu verdadeiramente. Os livros continuaram guardados em estantes, arcas e gavetas, muitas vezes gastos pelo uso mas preservados pela memória afectiva de quem cresceu com essas imagens.
Laura Olinda Alves Costa nasceu no Porto, a 15 de Dezembro de 1910. Frequentou o Curso de Pintura da Escola de Belas-Artes do Porto entre 1927 e 1939, integrando o grupo estudantil e artístico "Mais Além" que reunia jovens criadores interessados em renovar o ambiente académico do seu tempo. Formada como pintora, seria sobretudo no domínio da ilustração que deixaria a sua marca mais profunda. Desapareceu em 1993, após uma carreira que atravessou grande parte do século XX.
Ao longo das décadas de 1940, 1950 e 1960, Laura Costa tornou-se uma das mais importantes ilustradoras portuguesas de literatura infantil. Trabalhou para diversas editoras, mas a sua associação mais duradoura foi com a Majora, empresa fundada no Porto por Mário José António Oliveira, em 1939. A Majora editava jogos, brinquedos e livros para crianças, e foi nesse contexto que nasceram muitas das imagens que ficaram gravadas na memória de sucessivas gerações.
Entre as suas obras mais conhecidas encontram-se versões ilustradas de contos tradicionais como Branca de Neve, A Bela Adormecida, A Gata Borralheira, etc. Particularmente célebres foram os livros de pano, impressos sobre tecido resistente, concebidos para serem manuseados por crianças muito pequenas sem se rasgarem. As cores luminosas, os contornos bem definidos e a elegância das figuras tornaram-se elementos característicos do seu estilo.
Laura Costa trabalhou para jornais, editoras, fabricantes de jogos e instituições diversas. Produziu ilustrações para o jornal O Primeiro de Janeiro, desenhou postais para os CTT e colaborou em numerosas publicações escolares e infantis. Muitas das suas imagens inspiravam-se nos trajes regionais portugueses, que estudava com atenção, incorporando-os num universo visual que combinava tradição popular, fantasia e refinamento gráfico.
Curiosamente, durante muitos anos, milhares de pessoas conheceram as suas ilustrações sem conhecerem o seu nome. As crianças lembravam-se da Branca de Neve dos livros da Majora, mas raramente sabiam quem tinha desenhado aquelas figuras. No entanto, para quem observava atentamente as páginas, o nome estava lá. Laura Costa assinava frequentemente as suas ilustrações com o nome completo — "Laura Costa" — colocado discretamente na margem dos desenhos.
Nas últimas décadas do século XX, a ilustradora foi sendo esquecida pelos estudos académicos. Contudo, a sua obra continuou a sobreviver nas colecções particulares e nas memórias de antigos leitores. Aqui estou, na praia, com a sua 'Branca de Neve', quando ainda não era um livro gasto e incompleto. Sim, ainda o tenho. Este e muitos outros, que procurei em alfarrabistas e feiras de velharias, reconstruindo lentamente o percurso que ninguém ainda tinha estudado.
Laura Costa nunca esteve esquecida pelas crianças que cresceram com os seus livros. Enquanto existirem livros de pano folheados à exaustão, postais guardados em álbuns e leitores que ainda reconhecem a sua assinatura nas margens das ilustrações, continuará a ocupar o lugar que conquistou há muito tempo: uma das mais importantes criadoras do imaginário infantil português do século XX.
MARINA TAVARES DIAS

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