quarta-feira, 10 de junho de 2026

LAURA COSTA, ILUSTRADORA DE UMA GERAÇÃO

 Quando se fala hoje de Laura Costa, é frequente encontrar referências à sua "redescoberta" recente. A expressão é enganadora. Referi-a inúmeras vezes no grupo «Photographias Portuguezas», desde 2011. Para os portugueses que foram crianças nas décadas de 1960 e 1970, Laura Costa nunca desapareceu verdadeiramente. Os livros continuaram guardados em estantes, arcas e gavetas, muitas vezes gastos pelo uso mas preservados pela memória afectiva de quem cresceu com essas imagens.

Laura Olinda Alves Costa nasceu no Porto, a 15 de Dezembro de 1910. Frequentou o Curso de Pintura da Escola de Belas-Artes do Porto entre 1927 e 1939, integrando o grupo estudantil e artístico "Mais Além" que reunia jovens criadores interessados em renovar o ambiente académico do seu tempo. Formada como pintora, seria sobretudo no domínio da ilustração que deixaria a sua marca mais profunda. Desapareceu em 1993, após uma carreira que atravessou grande parte do século XX.

Ao longo das décadas de 1940, 1950 e 1960, Laura Costa tornou-se uma das mais importantes ilustradoras portuguesas de literatura infantil. Trabalhou para diversas editoras, mas a sua associação mais duradoura foi com a Majora, empresa fundada no Porto por Mário José António Oliveira, em 1939. A Majora editava jogos, brinquedos e livros para crianças, e foi nesse contexto que nasceram muitas das imagens que ficaram gravadas na memória de sucessivas gerações.

Entre as suas obras mais conhecidas encontram-se versões ilustradas de contos tradicionais como Branca de Neve, A Bela Adormecida, A Gata Borralheira, etc. Particularmente célebres foram os livros de pano, impressos sobre tecido resistente, concebidos para serem manuseados por crianças muito pequenas sem se rasgarem. As cores luminosas, os contornos bem definidos e a elegância das figuras tornaram-se elementos característicos do seu estilo.

Laura Costa trabalhou para jornais, editoras, fabricantes de jogos e instituições diversas. Produziu ilustrações para o jornal O Primeiro de Janeiro, desenhou postais para os CTT e colaborou em numerosas publicações escolares e infantis. Muitas das suas imagens inspiravam-se nos trajes regionais portugueses, que estudava com atenção, incorporando-os num universo visual que combinava tradição popular, fantasia e refinamento gráfico.

Curiosamente, durante muitos anos, milhares de pessoas conheceram as suas ilustrações sem conhecerem o seu nome. As crianças lembravam-se da Branca de Neve dos livros da Majora, mas raramente sabiam quem tinha desenhado aquelas figuras. No entanto, para quem observava atentamente as páginas, o nome estava lá. Laura Costa assinava frequentemente as suas ilustrações com o nome completo — "Laura Costa" — colocado discretamente na margem dos desenhos.

Nas últimas décadas do século XX, a ilustradora foi sendo esquecida pelos estudos académicos. Contudo, a sua obra continuou a sobreviver nas colecções particulares e nas memórias de antigos leitores. Aqui estou, na praia, com a sua 'Branca de Neve', quando ainda não era um livro gasto e incompleto. Sim, ainda o tenho. Este e muitos outros, que procurei em alfarrabistas e feiras de velharias, reconstruindo lentamente o percurso que ninguém ainda tinha estudado.

Laura Costa nunca esteve esquecida pelas crianças que cresceram com os seus livros. Enquanto existirem livros de pano folheados à exaustão, postais guardados em álbuns e leitores que ainda reconhecem a sua assinatura nas margens das ilustrações, continuará a ocupar o lugar que conquistou há muito tempo: uma das mais importantes criadoras do imaginário infantil português do século XX.

MARINA TAVARES DIAS





sexta-feira, 22 de maio de 2026

CAFÉ PALLADIUM

O Café Palladium abriu portas no Porto a 4 de Novembro de 1940, instalado no monumental edifício dos antigos Grandes Armazéns Nascimento, na esquina da Rua de Santa Catarina com a Rua de Passos Manuel. O imóvel fora projectado décadas antes pelo arquitecto Marques da Silva, num processo iniciado em 1914, mas só concluído em 1926. Em plena época dourada dos grandes cafés urbanos, o Palladium surgiu como símbolo de modernidade e luxo: decoração Art Déco desenhada por Mário de Abreu, grandes espelhos, mármores, iluminação indirecta, restaurante, salão de chá, salas de bilhar e snooker, espaços de jogo e até um cabaret no último piso com entrada própria. Tornou-se rapidamente um dos centros da vida nocturna portuense, frequentado por comerciantes, jornalistas, artistas e boémios, numa atmosfera cosmopolita inspirada nos cafés parisienses. O Diário de Lisboa destacava mesmo algumas modernidades raras para a época, como mesas com ligação telefónica e sistemas de altifalantes internos.

O Palladium encerrou definitivamente em 31 de Março de 1974, já numa altura em que o modelo clássico dos grandes cafés começava a desaparecer. O edifício foi depois transformado nas Galerias Palladium, mantendo o nome histórico e ganhando, na fachada, o célebre relógio animado com figuras como o São João, o Infante D. Henrique, Almeida Garrett e Camilo Castelo Branco. Durante décadas funcionaram ali várias lojas de referência, incluindo a Fnac e a C&A, que abandonaram o espaço recentemente. Em 2024 foi anunciada uma nova transformação do edifício: a instalação da primeira loja de rua da Primark em Portugal, ocupando cinco pisos, com abertura prevista para 2027. Apesar das mudanças sucessivas, o velho Palladium continua a marcar visualmente a Baixa do Porto, como memória sobrevivente dos grandes cafés elegantes do século XX.




sexta-feira, 15 de maio de 2026

CAFÉ GICHARD

 O célebre Café Guichard foi um dos mais importantes e elegantes cafés do Porto oitocentista, situado na então Praça de D. Pedro — actual Praça da Liberdade — no coração político e mundano da cidade. O estabelecimento foi fundado em 1843 pelo francês Jean Baptiste Guichard, numa época em que os cafés começavam a transformar-se em verdadeiros centros da vida urbana burguesa. Inicialmente conhecido como “Café Francês”, cedo passou a adoptar o apelido do proprietário. Dstinguia-se pelo luxo pouco habitual para a época: salas amplas, espelhos, mármores, candeeiros a gás e uma decoração inspirada nos cafés parisienses

Frequentavam-no comerciantes ricos, jornalistas, políticos, estudantes, etc. Camillo Castello Branco ia para o café sobretudo a partir de 1848, integrado nas tertúlias dos chamados “Leões”, célebre grupo de boémios do Porto romântico. Deixou uma descrição mordaz do ambiente do estabelecimento, escrevendo: “O Café Guichard, a que eu chamaria colmeia onde se emelavam doces favos de espírito, se aquele botequim não fosse antes um vespeiro…”.

Foi uma instituição da vida social do Porto. Discutia-se política, liam-se jornais nacionais e estrangeiros, organizavam-se tertúlias literárias e comentavam-se os grandes acontecimentos europeus. O café era também famoso pelos seus gelados, bebidas e pastelaria, seguindo modelos franceses pouco comuns em Portugal naquela época. Em redor da Praça de D. Pedro formou-se então um verdadeiro circuito de cafés históricos que definiam o coração social e intelectual da cidade. 




domingo, 28 de fevereiro de 2021

CAMILO E A TORRE DA MARCA





Torre da Marca, referida por Camilo Castelo Branco num dos seus primeiros poemas, 
a propósito de um duelo ali travado em 1845. 
Toda a zona circundante adoptou como topónimo esta designação.




Uma luva se vio cahir em terra,

Prestes braço se vio alevantal-a:

Convieram no lugar — Torre da Marca —

Quaes armas devem ser? — sejam bengalas,

E quatro horas da tarde as horas sejam —

Segunda feira o dia — Quem falta é frágil —

Tremi ao ver finar vidas tão caras!

Julguei ver a meus pés em postas feitos

Dous corpos tão gentis! caras tão bellas!



Camilo Castello Branco,
Pundonores Desagravados, 1845.


Ilustrações:
gravura oitocentista do Archivo Pittoresco
e postal ilustrado c. 1920.


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quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O palacete do grande incêndio da Boavista



Esta casa não foi construída por qualquer «brasileiro- de-torna-viagem», nem foi propriamente demolida. Foi morada do banqueiro Manoel Pinto da Fonseca, e destruída por um incêndio, no dia 14 de Outubro de 1926. Já agora, que a imagem anda por aí nas redes sociais com tantos erros de identificação, fica um desafio: passagem pelo local e descoberta daquilo que permanece, hoje em dia, da velha propriedade.

sexta-feira, 27 de março de 2020

COSTUMES do PORTO ANTIGO na cartofilia

A cartofilia de há um século sobrevivia em grande parte graças ao sucesso do bilhete postal topográfico, apesar do inegável impacto de outros bilhetes temáticos, hoje em dia (2014) um pouco injustamente agrupados sob o epíteto generalista de «românticos».

O certo é que foram estes, os «postais topográficos», que nos deixaram a memória dos costumes de cada cidade, assim como da arquitectura perdida e do património delapidado. No caso do Porto, os grandes editores, como Alberto Ferreira, Arnaldo Soares ou o geralmente designado «Estrela Vermelha» contribuíram com centenas de «clichés» até então desconhecidos - e que hoje nos permitem retomar quotidianos quase inimagináveis em certos locais.



Os tempos em que Ramalde era campo aberto 
(edição Estrela Vermelha)


O Bolhão inicial, ao ar livre
(edição Alberto Ferreira)

O pimitivo Teatro de S. João, antes do incêndio
(edição Arnaldo Soares)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

OS SOLAVANCOS DA PONTE PÊNSIL



«[...] 'Do bailar da ponte tive a experiência, a única vez que por ela passei, de trem, na meninice, com minha família, quando esta ia fazer uma visita de amizade á Quinta da Lavandeira em Gaia.
Os sacões que senti, foi quanto a minha memória reteve da ponte suspensa...' – diz-nos Pedro Vitorino [...]

PORTO DESAPARECIDO
de
MARINA TAVARES DIAS 
e
MÁRIO MORAIS MARQUES


LAURA COSTA, ILUSTRADORA DE UMA GERAÇÃO

  Quando se fala hoje de Laura Costa, é frequente encontrar referências à sua "redescoberta" recente. A expressão é enganadora. Re...